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desnome

Agora que estamos no coração
do combate
de não ser
a gente mesmo,
estamos livres,
finalmente
começadamente
fora do
comercialmente
comércio
de ser a gente
decentemente

pois
agora que não somos
que somos indecentes
o aberto presente é
o só o interessa o que não é
meu
nem seu
nem nosso
nem de ninguém
sem catequeses

desde que
o outro em nós e fora de nós
não seja a idealizada mímica
da caricatura que temos sido
de nós pros nós de nós mesmos
no strip-tease humanista de nós no gene
da gente,
demente

desde que
eu não seja eu
de nós,
humanos,
impérios
romanos

pois
já não chega,
e nunca chegou,
o penso logo existo,
com seu anjo maligno
ocidental-imperial-filosofal-escrotal-parasital
de ser homem,
desgraça imperiosa deste mundo fodido
cheio de infaustos faustos
incestuosos
desejos
intra
desejosos
de
ser nós
venosos
de intimidades
de obscenidades
de ser
esta malária:
subjetividades
ids ambulantes,
parasitando
o ególatra
golo
guloso
na goela
do estômago
do racismo
de ser
seja lá o que for
de ser um dentro
em defesa bélica
em relação a um fora
a desforra da farra de não ser
é a única que destece
a desforra de desumanizar
chega de ser humano
esta farsa

se quer ser não sendo
se quer o aberto impossível
de não fazer
fazendo
e versa-vice
no vice-versa
de destecer o ser
de não ser
se quer
sem querer
deselíte-se,
se quer ser ateu
e também se quer acreditar em deus
deselite-se
se quer acreditar no mundo
se quer ser revolucionário
se quer ser gente boa
deselite-se
de si
e do si
em si
no
mim
no
tu
em
ti

abandone as cúpulas
jogue fora sua humanidade
a humanidade
de ser racional
- na suposição
de que outrem
é irracional -
de ser fenomenal
de ser em oposição
ao não ser

deselite-se
abandone a guerra
de ser humano
de se afirmar

seja mar
seja o deserto
seja o bando
o bandido
a tribo
a malta
o outro
na outra
do outro
noutra/noutro
não ser
revolto

porque
durante a guerra
a guerra que travamos
contra
a lontra
na formiga
do lambari
no riacho
nas lágrimas
no peixe
do choro
da fome
de Iasmim
a iraquiana
na iraniana
na palestina
na afegã
na africana
na puta
da esquina
no delírio
da cracolândia
na fumaça
no pulmão
do joaquim
de 15 anos
na perdição
da rendição
de ser acusado
de ser a prostituta
a bandida
a piranha
sob os olhos
da elite
de ser um dentro
bélico
assassino
genocida
ladrão de excedentes
do excedente econômico
amoroso
epistemológico
dança
música
poesia

é disto que o ladrão de ser dentro
dentro-homem
dentro-rico
dentro-corporação
dentro-banqueiro
dentro-dinheiro
é isto que o ladrão de ser dentro
rouba:
o fora de não ser dentro
de ser o alegre fora
de ser
o índio
no branco
no amarelo
no negro
no mestiço
na enguia
na língua
na onça
no tato
no ato
no prato
no fato
de
fartar-se
de
não
estar
farto
de
não ser
eu

abandone
o
eu

porque
na guerra garra de amarras de
ser eu dentro de eu
de ser é meu
a verdade de ser outro
de viver
é a primeira
durante a guerra
a morrer

Comentários

Canto da Boca disse…
Essa forma explosiva que teus textos têm de nos tragar para dentro do poema e nos debatermos dentro dele, contra nós mesmos, apontando com a consciência-dedo em riste, o quão contraditórios e humanos somos, é nossa possibilidade maior para as mudanças que sempre ansiamos - embora n' algumas vezes nem sempre consigamos -, é um espelho poderoso, um combate à apatia.
Verbo e explosão, convidando-nos para os combates cotidianos...

Beijao, La Mancha, e à medida que necessitamos vamos deixando o sumiço...

;)
Abuela Ciber disse…
Tiempos vendran donde el hombre aprendera a vivir solidariamenteo...perecerá.

Saludos
Gisa disse…
A força do poema arrebata e conquista.
Lindo
Um bj e obrigada pela visita. Volte sempre que quiser.
Claudinha ੴ disse…
Seria assim um ser complexo, amplificando o sentir. Uma boa Poesia.
Abraço!

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